domingo, 21 de outubro de 2012

Saber lavar as mãos


 Hoje não consigo parar de pensar nas pessoas que sabem lavar as mãos.
 Depois de ler sucessivas notícias  como:  Paris "precisa de portugueses para trabalhar na Disneyland", ou "AutoEuropa leva pessoal para emigrar para a Alemanha" ou "1.550 ofertas de emprego nos Estados Unidos" ou " Oportunidades em Moçambique" e notícias associadas com os melhores empregos no Brasil, em Angola e na " Conchichina" não aguento mais!
  Apesar de eu própria ter emigrado há algum tempo, existe uma voz que incomoda e que me diz com persistência: mas porque motivo temos todos agora de emigrar em massa? Porque razão se somos o mesmo povo temos sucesso noutros países e não no nosso país de origem? E de repente recordo essa cena de Pilatos a lavar as mãos na água antes de Cristo ser sacrificado...
 Existe agora o argumento da moda, chama-se "CRISE", esse monstro pavoroso criado por alguns para aterrorizar uma maioria demasiado ocupada para se preocupar com subtilezas retóricas, monstro que serve agora como hidra obediente para ludibriar as pessoas e as convencer que quem afinal tinha responsabilidade para criar postos de trabalho, dinamizar o país, assegurar as infra-estruturas básicas do país tem também agora convencida  a imprensa, a televisão, os jornais, o jornalismo on-line que somos todos obrigados  a emigrar porque alguém lavou as mãos no argumento da CRISE.
Parem por favor de usar caracteres para falar de emprego além mar e tentem gastar esse espaço para apontar a fábrica que se fechou mas que pode reabrir, o recurso que está ali à mão de semear apesar de andarmos todos a dormir à espera  dos chineses, façam notícias que mostrem os hospitais a fechar apesar da margem de lucro ser muito elevada e de alguns administradores saírem pela porta dos fundos com a cara de quem não sabe de números, nem percebe de contabilidade.

domingo, 12 de agosto de 2012

Veganista, vegetariano, carnívoro ou omnívoro?

Há alguns dias atrás serviram-me um prato de comida farto, era um prato quadrado e gigante que tinha um pouco de tudo: salada, batatas fritas, hamburguer, molho e para acompanhar uma coca-cola clássica. Eu comi, comi e comi e ainda assim o prato ficou a meio. Ao observar as pessoas no mesmo restaurante, vi que cerca de 80% por cento fez o mesmo que eu. Pensei que uma quantidade significativa daquela comida haveria de ir para o lixo ou quem sabe como se faz em restaurantes menos sérios  voltar a ser reutilizada por outros clientes.
 As pessoas passam a vida preocupadas com a aparência e a imagem, enquanto fingem que andam preocupadas com o ambiente " Eu comer carne? Nunca! Gasta sete vezes mais água e os animais são mortos". Quando ouço estes comentários tenho logo vontade de perguntar se tomam banho de chuveiro em casa ou se apreciam mais um banho ou se alguma vez durante a vida adoptaram algum animal do asilo ou recolheram algum gato mirolho da rua, porque sei que são estas pessoas as "vegetarianas" que gostam de um bom banho de imersão e gostam de ter um cão de raça. Talvez nem todos os vegetarianos tenham este comportamento contraditório e quase irónico, mas a maioria dos que conheço são assim.
  Mas quando achamos que o mundo é um lugar diverso, estranho e cheio de contradições ficamos ainda mais abismados com os radicalismos, ou seja enquanto existem pessoas a lutar semana a semana para se poderem alimentar ou pessoas como conheci que compram feijão à grama, temos do outro lado os veganistas que por tão nobres e respeitosos do meio ambiente que são, não comem nem carne, nem peixe nem nenhum alimento derivado de origem animal. Quando confrontada com este fenómeno perguntei: "Estas pessoas comem o quê então? Ar?" A minha ingenuidade foi evidente quando depois de pesquisar me deparei como uma série de lojas específicas para veganistas, onde os seus representantes admiravelmente pálidos faziam publicidade às raízes desta e de outra planta, aos pólens...fui a uma destas lojas e enquanto apreciava um pote de mel super caro perguntei ao vendedor: E o mel não é de origem animal? O vendedor disse-me que não, que era feito com o pólen das flores. Eu dei uma gargalhada e disse: " Mas as abelhinhas coitadinhas, precisam de trabalhar para que nós, o homem, tenhamos o gosto de saborear este mel não?" O homem ficou a olhar com um ar de desagrado para a minha pessoa, obviamente omnívora.
  O que me pergunto todos os dias é porque motivo ainda não foi criado nenhum movimento para se consumir menos, ou pelo menos se consumir só o que se come. Quantos animais e quantas plantas seriam poupadas deste genocídio global de seres vivos, se todas as pessoas pensassem nisso quando fossem ao supermercado ou quando fossem cozinhar? Lanço o desafio e quem sabe não crio um site para mostrar receitas e produtos que podem ser reutilizados ou melhor: gastar menos e consumir o justo.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Da deficiência

Há dias chamou-me atenção a notícia amplamente divulgada no Facebook sobre o campeonato mundial de Atletismo de Síndrome de Down. A equipa portuguesa foi a vencedora e no post o autor queixava-se que a notícia não seria divulgada nos media.O post atraíu a minha atenção não pela queixa mas pelo facto do dito autor do texto não ter fornecido mais informações sobre o nome do vencedor, biografia ou detalhes da prova.


Um outro post no facebook semanas antes atraíu também a minha atenção: desta vez por causa da reivindicação social de outro atleta português paralímpico que tinha parado de receber subsídio social do estado português sem razão aparente. A acompanhar o post o atleta diz: "Eu, David Grachat, portador de deficiência física - mal formação congénita (amputado da mão esquerda), encontro-me há mais de 1 ano e 6 meses numa luta com o Serviço Português da Segurança Social, serviço esse que me retirou os meus direitos enquanto cidadão com deficiência."Na foto o atleta pede que descubram a diferença entre a uma foto sua tirada em em 2000 e outra de 2011, fazendo as pessoas constantar que continua na mesma situação.


Mas nem sempre os deficientes são neglicenciados isto porque associacões como a CLAP (centro local de Animação e Promoção Rural em Amarante) deu apoio social durante alguns meses em 1999 e 2000  incluindo deficientes físicos e mentais, apoio que surtiu efeitos: " Desde que o meu irmão começou a ter acesso a este apoio social, evoluíu muito, nós estavamos até confiantes que seria capaz de ser totalmente autónomo" explicou Helder Peixoto, a respeito da grande evolução e progresso do irmão com 50 anos, que depois de ter sofrido um ataque de meningite na infância viria a sofrer de deficiências mentais para o resto da vida.
  Mas o caso do irmão do Hélder Peixoto é exepção porque a verdade é que quase todos os assuntos relacionados a deficientes físicos ou mentais são em Portugal um gigante tabu e muitos destes deficientes vivem nas condições mais estremas de sofrimento e de isolamento, muitas vezes encerradas pelos próprios familiares em casa, como se a sua realidade tivesse de ser encarcerada e serem para sempre confinados à sombra. Mas a questão do "vamos esconder o deficiente" começa agora num mundo globalizdo a ganhar outros contornos e muitos começam a reivindicar direitos incómodos a uma sociedade que exige a perfeição fisica e mental. Na Holanda por exemplo existe  um grupo de assistentes sociais chamado de " Masturbatie team" estas mulheres prestam serviços masturbatórios a homens e mulheres deficientes sendo que um dos temas largamente discutidos tem sido o direito ao sexo com ou sem deficiência: http://www.filamentmagazine.com/2011/09/helping-disabled-people-meet-their-emotional-and-sexual-needs//
 A mesma reinvindicação foi feita em Inglaterra onde um homem de 21 anos portador de deficiência física reinvindicou o direito de ter sexo como qualquer outro ser humano e acabou por conseguir que o estado lhe reconhecesse o direito e fosse criado um fundo que financia sex holydays (férias com sexo). O pedido haveria de ser ouvido e o estado inglês acabou mesmo por criar programas destinados aos cidadãos ingleses com deficiência para que pudessem não só ir de férias para outro país como usufruir do direito ao sexo (ver em: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1303273/Councils-pay-disabled-visit-prostitutes-lap-dancing-clubs.html).
 Um filme polémico tem também chamado atenção de milhares de pessoas para este problema social:  "Hasta la vista", um filme de um grupo de jovens portadores de deficiências que fazem uma viagem a Espanha à procura de sexo, ver em: http://www.youtube.com/watch?v=EfrQRas7gPw 
 A pergunta que fica é: Até quando as sociedades, os estados, os governos, as pessoas vão fingir que os deficientes não existem e que todos somos perfeitos, felizes e vivemos afinal num conto de fadas?

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mensagem do Dia da Criança

Hoje é dia mundial da criança, por isso decidi escrever.
Não vou fazer poemas nem lançar balões para o céu mas achei que hoje era um bom dia para recordar a memória e a história de todas aquelas crianças que foram vítimas das piores atrocidades e que por serem crianças foram silenciadas.
A história mais recente é a da menina chamada Diana Farkas que foi morta pela própria mãe em Charleroi, na Bélgica cortada em pedaços e conservada dentro de um congelador durante meses. Quando a polícia encontrou o corpo e descobriram que tinha sido a própria mãe a matá-la, o psicólogo teve de fazer o seu trabalho e perguntar à mãe o motivo de tal crime hediondo. A mãe disse que vivia uma relação agressiva com o pai da criança e que temia que um dia ela Diana fosse a sofrer com a mesma violência, por isso a tinha matado, evitaria assim um sofrimento futuro para a criança. A imprensa tinha avançado anteriormente com a ideia que a mulher poderia sofrer disturbios mentais uma vez que tinha alegado antes que o pai era violento porque gritava com a criança para que esta não comesse chocolate dentro do carro.

Diana Farkas
1. Diana Farkas com 4 anos

Outros dos casos mais recentes foi sem dúvida o caso do casal inglês Mick Philpott de 55 anos e Maired de 31 que mataram 6 filhos num incêndio. O casal viria a ser identificado e  seis crianças viriam a morrer no hospital carbonizadas. O pai alegou que não aguentava mais a pressão e entre lágrimas não conseguiu esconder o horror do seu arrependimento e a estupefacção das enfermeiras que repetidamente lhe diziam em inglês: " Por favor diga que não é verdade, diga que não foram vocês que fizeram isto."
2. Mick Philpott e Maired, a esposa

Outro dos casos que li e que observei através dos media foi o julgamento do homem holandês Robert M.  acusado de  violar  80 crianças, contudo várias fontes indicam que o número de crianças violadas pode ser maior, uma vez que os indícios de violação apontam ainda para os anos 80. Foi condenado a 18 anos de prisão e durante o julgamento reagiu aos anos de punição decretado pelo tribunal atirando com água para a cara do juíz e dos jurados. Enquanto vi esta cena lembrei-me do que uma vez me disse Agustina Bessa Luís numa entrevista quando eu ainda tinha 19 anos: " As pessoas não entendem estes casos de pedofília, porque não entendem que há muito se   perdeu a inocência de tudo. Só as crianças conservam este estado de pureza e de inocência que nos nossos dias não pode ser mais encontrado em homens e mulheres adultos."
Confesso que durante algum tempo andei obcecada com a ideia de fazer um trabalho de investigação sobre crinaças desaparecidas e cheguei a fazer uma pequena colectânea de fotos e de reunir as características dos desaparecidos. Cheguei a encontrar um padrão constante em alguns dos desaparecidos no aeroporto.  Fiquei depois muito desiludida e frustrada quando percebi que estas crianças representavam também um valor notícia. Na altura disseram-me assim: " Mas quê? As novidades que tens são sobre a Maddie?" Eu disse que não e logo percebia o desalento do outro lado da voz de quem tem o poder de publicar: " Ah, então não estamos interessados. Além disso andamos todos já fartos de escrever e de falar sobre a Maddie." 
  Só a minha mãe parece ter percebido o interesse e o horror que me causam estes casos de assasínio e abuso de que são vítimas milhões de crianças em todo mundo e por isso no dia do meu aniversário ofereceu-me o livro " A Estrela de Joana" que mostra uma pequena algarvia de rosto limpo e sorriso bonito chamada Joana que foi morta pelo tio e pela mãe depois de ter descoberto acidentalmente o caso incestuoso da mãe. Jamais esquecerei as repetidas cenas da Polícia Judiciária no Algarve, aqui ali com os cães a chamarem por ela e um silêncio enorme que ecoava pelo calor e pelos campos.
                                                        
3. A pequena Joana Cipriano

  Poderia continuar a escrever e a relatar mais casos mas não me parece necessário uma vez que hoje para grande estupefacção minha descobri que já há quem se dedique a escrever no wikipédia artigos sobre casos de pedofilía e assassínio por país e por ano. Queria apenas concluir e dizer que todos os esforços que se tem feito para proteger as crianças são insuficientes e que por serem tão precisos é necessário redobrar esforços e multiplicar formas para evitar que situações como estas aconteçam.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O que têm em comum Santa Bárbara, Iria e Quitéria

Uma mulher pode morrer mas não morre o ideal. Este pensamento pode até soar platonista ou romântico, mas a verdade é que o espiritual prevalece além do material. Tenho andado a reflectir sobre isso depois de me ter debruçado sobre alguma da historicidade iconográfica portuguesa. O meu pensamento vagueia entre a história de Santa Bárbara, Santa Iria  e Santa Quitéria. Todas estas mulheres foram consideradas santas e todas morreram à mercê de algum homem que as queria fazer  noivar. A ideia era fazê-las renunciar não só à sua religião como de igual modo às suas convições...Intriga-me as atrocidades cometidas por exemplo a Santa Bárbara cujos seios foram decepados antes de ser degolada assim como a " beberagem" dada pelo monge a Santa Iria de Tomar para provocar sinais de "prenhez" na mulher. Existem muitos mistérios ainda a descobrir por uma boa investigação: até hoje não se sabe se a bebida venenosa oferecida pelo monge tinha como objectivo fazer Iria disforme, se estava grávida e foi assassinada como sugerem as histórias por um "servo de Remigildo"(um dos seus nobres admiradores) como ilustram os azulejos da Igreja que tem o mesmo nome da Santa, se a bebida foi dada por ciúmes e raiva por não poder ter qualquer tipo de relacionamento carnal ou se a história verdadeira é a que contam os locais de Tomar: na versão popular Santa Iria foi levada a uma torre e decapitada por ter recusado o matrimónio.                                      
Quando se pensa  na história de sangue e de violência relacionado com Santa Bárbara e Santa Iria nunca se imagina que a mesma história teve eco mais oito vezes, desta vez pela história de mais oito mulheres santas, degoladas, queimadas, perseguidas...Reza a história que todas as oito gémeas de Santa Quitéria nascida em Braga e executada em Felgueiras tiveram o mesmo destino.
 É de alguma forma icónico ou simbólico que Iria, Bárbara e Quitéria tenham sido julgadas num alto como se de alguma forma a justiça popular pudesse ser mais visível a Deus...Serão todas estas histórias factos históricos que mostram a ira popular contra a rebeldia feminina? Serão estas histórias moldes icónicos com a finalidade de educar e de civilizar? Ou será este um padrão triste que a história repete? 

domingo, 29 de abril de 2012

Vender é perder?

Tenho andado a refletir sobre a diferença entre perder ou vender um negócio. À partida muitos diriam que no caso da venda, o vendedor ganharia dinheiro, mas o que acontece quando o negócio envolve centenas de outros negócios? Transações e milhares de  micro negócios e empresas associados a um bem que será vendido?
Depois de ter visto o Pingo Doce a ser vendido aos holandeses, a EDP aos chineses, parte do Millenium à filha do presidente Eduardo dos Santos, estava na hora de ver também a percentagem infíma mas preciosa para Portugal de 15% da barragem de Kaho-Bassa ser vendida aos moçambicanos. Não é que eu tenha nada contra o multiculturalismo mas o que me pergunto é como é que Portugal será capaz de manter uma auto suficiência financeira se estamos a ser controlados e subjugados por outros. Fiquei ainda mais perplexa com a posição de Passos de Coellho em Moçambique enquanto falava com um grupo de crianças que trabalhavam o vime para fazer cestos: " E então quanto tempo se demora para se tornar mestre?" Como se as crianças tivessem tempo para pensar no tempo de serem mestres enquando estavam mais ocupadas em manter a sua própria subsitência. Em nenhum momento se ouviu falar de trabalho infantil durante a peça jornalística, porque os moçambicanos sabem o quão importante é ser independente, enquanto Portugal esteve ali para vender mais uma parte do seu passado histórico e da sua economia transnacional. Entendo que tudo esteja a ser feito para cobrir a dívida para o exterior, mas este é o preço que todos teremos de pagar?  Dona Antónia Ferreirinha  sabia já em 1863 que ao vender parcelas de terreno do Douro aos ingleses estava a perder negócio e preferiu comprar o vinho aos agricultores para manter o Douro português. É importante mais do que nunca que os nossos líderes se mantenham atentos e menos desesperados e pensem em soluções menos evidentes mas mais eficazes.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Retratos de um Portugal deprimido

Como portuguesa que sou fiz questão da última vez que saí de Portugal de beber vinho durante a viagem de avião para me tentar esquecer que estava a deixar o meu país...bebi tinto maduro, para ter uma ideia saudosista do meu alentejo e ribatejo lá longe... Este simples acto, o de beber vinho, não só me fez sentir bem e mal como foi em simultâneo um dos muitos milhares de retratos de portugueses deprimidos: ora porque deixam o país, ora porque ficam em território nacional, ora porque querem emigrar e não sabem como fazê-lo...outros ainda vi a resignarem-se simplesmente à sua sorte e em modo de velho do restelo a tomar comprimidos com aguardente para tentar esquecer a idade e a troika. Admiro os portugueses que conseguem esquecer a crise com um simples jogo de futebol ou com a telenovela da Santinha da luz. Admiro porque não sou capaz. Não há palavra mais triste e ignóbil do que o "trespasse" do antigo atelier da minha costureira, ou as horas mortas na fila do banco no dia de levantar a reforma, onde todos os analfabetos aproveitam para levantar as misérias do balcão uma vez que não sabem usar as caixas multibanco. Não há horror maior do que um belo dia cheio de sol onde se vê pessoas a pedir no aeroporto cigarros aos estrangeiros e ver os "chicos fininhos" com um inglês mal arranhado a perguntar "cigar, cigar for me no?" Durante um momento enquanto ouvia o inglês mal coloquial do" chico fininho", pensei que pelo menos os vagabundos que vivem na cidade do Porto e que apanham o tabaco do lixo dos outros são mais nobres do que aquele que estava ali a pedir ao estrangeiro sujeito ao ar trocista do turista que fingia não entender. Tive ainda uma vontade quase incontrolável de queimar a revista de bordo onde se podia ler: Don´t buy a house buy the neighbourhood ( não compre uma casa, compre a vizinhança) e ao fundo uma paisagem de uma dessas aldeias abandonadas do sul de Portugal.
Mas a maior de todas as crises, pior do que a monetária, do que a trocista é a crise de espírito e essa crise nunca vai chegar aos portugueses: a avaliar pela quantidade de piadas e trocadilhos da televisão e  da imprensa nacional. O povo pode até ser ignorante, ser pobre, mas é livre e vai continuar a rir-se ainda que deprimido, com ou sem aguardente da troika, da Merkel, do Passos de Coelho, do Sócrates, do Alberto João Jardim e afins...porque ainda não se paga imposto por  gargalhada ou por uma dose de má língua.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Pietà e a Primavera Árabe

Este ano quando vi pela primeira vez a fotografia que ganhou o word press photo tive uma profunda sensação de deja vu, ao mesmo tempo que múltiplos pensamentos e sensações fluiram no meu pensamento. A primeira foi sem dúvida esta: esta foto é a Pietà moderna, uma foto  tão artística que não fica nada a dever à Pieta de Michelangelo: a mesma misericórdia, a mesma posição, até os tecidos que cobrem a figura feminina parecem deslizar da mesma forma.
 Depois tive esta percepção: que na foto não se vê a expressão da mulher o que é em simultâneo enigmático(não sabemos quem é a mulher e que expressão fez) e em simultâneo isto incomoda: não só por não sabermos quem é, mas porque o "sujeito" da piedade, o elemento que produz o sentimento nobre é icógnita...fiquei incomodada pela ideia que milhões de mulheres como eu, como esta vão ser para sempre sem uma face como se não existissem.                                  
A última sensação e pensamento que tive foi a mais forte e o mais poderoso: Por um momento pensei que não era a mulher que estava encoberta mas sim eu e todos nós que estamos cegos como no livro de Saramago: "Ensaio sobre a cegueira" porque no fundo todos padecemos de uma cegueira branca, no sentido que " o pior cego é o que não quer ver" e é aquele que padece de uma cegueira branca ou seja: todos nós sabemos o que se passa com esses milhões de mulheres e todos nós estamos a par dos abusos, exploração, degradação a que todos os dias expomos a figura da mulher e ninguém vê ou faz alguma coisa para mudar essa situação.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Onde estão os PIGS? E o que significa ser um

A sigla PIGS é uma criação que me deixa perplexa: primeiro porque para além de representar os países
em crise: Portugal, Itália, Grécia e Espanha é também uma palavra que em inglês tem o significado de "Porcos". No fundo os "porcos" da Europa são os países considerados como os menos produtivos e os mais esbanjadores. Achei interessante quando decidiram agregrar uma letra extra à sigla para seguir o rumo da crise europeia: assim quando a Irlanda entrou em crise a sigla tornou-se mais conhecida pela sua forma PIIGS ou seja a sigla manteve a fonia original, o que significa mais ou menos isto: os países que faziam parte dos mais esbanjadores continuam a ser os mesmos, ou seja continuam a fazer parte do mesmo grupo.Tem sido muito interessante seguir os jogos entre Merkel versus Grécia/ ou Merkel e Grécia consoante o contexto político que é apresentado na imprensa. Outro brilhante jogo de "xadrez" é sem dúvida  Merkel e os países em vias de desenvolvimento: sim em vias porque as "vias" se podem extinguir ou porque se podem mesmo vir a desenvolver.
 Outras vezes penso por vezes no filme o "Triunfo dos Porcos" quando olho para esta sigla não só porque de certa maneira metáforica alguns porcos se apoderaram de toda a quinta mas também porque tal como no filme a ideia inicial de uma União Europeia, era de partilha e de igualdade.
Mas o que em difinitivo me tem chamado à atenção é atitude dos E.U.A em relação a esta crise que se vive no sentido que Obama parece muito interessado nesta crise europeia e segundo declarações divulgadas pela TSF admitiu que: «O novo governo em Itália, o novo governo em Espanha e em Portugal fizeram todos progressos importantes mas (...) há ainda muito a fazer»,  e consciente ou inconsientemente acrescentou que para "assegurar não só a estabilidade económica mas também o crescimento na Europa porque, se a Europa crescer, isso vai ter igualmente consequências na economia norte-americana». Depois de ler esta notícia e sabendo que a economia é simplesmente a ciência da distribuição sorri, porque entendi que para o Tio Sam talvez esta recuperação económica talvez não seja uma boa ideia.
              Do Tio Sam, com amor

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

É carnaval, ninguém leva a mal. Será mesmo?

Este ano celebrei o Carnaval em Aalst, uma das cidades belgas mais conhecidas por causa do carnaval e por causa das famosas" Janettes" que contrariamente ao que o wikipédia sugere não são "joanas sujas" nem sei que tradutor deficitário em comprensão teve tal ideia. As "Jannetes" é uma palavra usada para os homossexuais que são mais femininos e por isso mais evidentes do que os outros. A parte do sujo é criação bizarra e aleatória de alguma mente retrógada.
Durante o cortejo, chamou-me a atenção o carro dedicado à presidente da câmara (prefeita) da cidade Ilse Uyttersprot, uma mulher semi-despida numa torre: os locais decidiram fazer chacota da presidente que foi filmada com um ex-namorado a ter relações sexuais num telhado. O país onde foram filmadas estas imagens permanece dúbio. O video do you tube que incialmente se pensou que fosse abalar a carreira política desta mulher acabou por a tornar ainda mais mediática. Isto dá que pensar: não só pela comédia ser feita numa cidade onde todos se consideram muito liberais e  porque nunca um escândalo sexual com homens na política foi considerado como verdadeiramente negativo:  Sarkozy com as suas aventuras amorosas ganhou fama de mulherengo glamoroso e Bill Clinton ainda se tornou mais mediático depois da história do "blow job" da Monica Lewinsky. Perguntei-me durante dias o que deve ter pensado Ilse depois de ver o carro carnavalesco com a sua caricatura gigante a desfilar na sua própria cidade mas depois recebi a notícia que Ilse estava a aproveitar o Carnaval vestida de "Torre".
                 

Por outro lado não deixa de ser fascinante que mais uma vez o "homem político" seja qualquer for a sua tendência sexual ganha sempre pontos.Elio di Rupio foi apresentado como gay.Não teve direito a carro carnavalesco mas alguns populares apresentavam o primeiro ministro com papéis como " gaye fatale" ao mesmo tempo que um desenho ilustrava como o "gay

podia urinar" sorrindo para Bart de Wever. Foi ainda surpreendente a criação linguística deste pequeno grupo que espalhavam os papéis pela cidade ao apresentar o novo primeiro ministro como " la jannete que rit" frase que significa: o homossexual feminino que ri, os populares apresentaram assim o seu ministro por analogia à famosa marca de queijo: " la vache que rit". Uma ideia bem divertida para o Carnaval.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Merkel "two face"

I have seen the last movies of Superman and I cannot avoid the resemblance between Merkel and the super hero "two face". The hero from  the beggining of the movie becames the most instable and impredictable character bringuing some balance to the world rulled before only by extreme heroes and anti-heroes.

Merkel was for Portugal a true "two face" in the sence that punished many corrupted men by calling their attention for the extravagances spending the money that was not theirs and at same time helping Portugal  with the financial rescue plan. The problem will be how to pay in the future the millions that were requested. The people will pay for the ones that made negotiations with the banks. If at same time Portugal realises cannot spend more that earns it´s impressive how their leaders still don´t understand how to pay what the country didn´t produce yet. I guess Merkel was the only reliable personage able to show the world this existence of " a new balance" where in one coin (euro) you can always find two faces.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Estou a agredir e a ofender porque sim, porque sou dogmática

Sempre me espantou a criatividade dos empregadores ao recusar ou repreender o trabalho de possíveis contratados. Durante toda a minha vida já ouvi os argumentos mais incríveis: 1. A pessoa é muito jovem para o trabalho, argumento que traduzido significa: A pessoa é inexperiente e por consequência uma imbecil para a função. 2. O possível contratado é demasiado velho, argumento que traduzido significa: Como é velho provavelmente vai demorar mais a aprender novos procedimentos, será menos atractivo e provavelmente porque tem experiência poderá exigir o salário devido e isso poderá ser um grande incoveniente.3. O contratado é mulher e demasiado atraente...lol...sim já ouvi este argumento dito por um possível empregador : aqui a Toyota faz questão que os empregados mulheres tenham cabelos curtos e que não fumem, por isso existem até pré-formulários que perguntam ao ainda possível contratado se fuma ou não. Já sabe se vir um destes inquéritos diga sempre que não, não vá perder um bom emprego por ser fumador.
4. O possível contratado não tem mãos de trabalhador...lol..Também eu me ri quando era ainda estudante e queria ter um part-time num restaurante chic da cidade e a chefe notou que as minhas mãos eram demasiado delicadas e sem queimaduras e que por esse motivo não servia para o serviço. 5. O possível empregado é demasiado pequeno. Tradução: "Queremos modelos para vender os nossos produtos"! Durante o período de estágio que tive no Porto, fui procurar um part-time no Porto e a chefe fez questão de mencionar que eu "até era bonitinha, mas pequena." Uma observação infeliz de alguém com a mesma estatura mediana e com uma inteligência ainda mais pequena do que uma noz. Nunca percebi como é que a estatura de um empregado pode influenciar as vendas de uma loja. Eu poderia continuar a contar os argumentos de possíveis empregadores, mas seria ridículo. Contudo não posso deixar de mencionar a frase de um empregador  que tive em Portugal quando depois de trabalhar horas extras e finais de semana protestei por um salário mais digno e ouvi do fundo da garganta a voz cavernosa " Tu queres é trepar!" Espero que o macaco que me disse isso tente ele próprio trepar a uma àrvore tão alta à custa do trabalho dos outros que caía e parta os dentes. Uma amiga minha que vive agora em Paris disse " a crise tem as costas largas" o que ela queria dizer é que todos os empregadores encontraram agora um argumento maior e mais válido para que todos tenhamos de acreditar nesta subjugação infundada do empregador. A única coisa que lamento até hoje foi nunca ter agredido um destes criadores de argumentos, mas quem sabe um dia se procurar novo emprego ponha a ideia em prática e em vez de argumentar diga: Estou a agredir e a ofender porque sim, porque sou dogmática."

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

S.Valentim, o santo decapitado

Todos sabem o que se celebra no dia de S. Valentim mas quase ninguém sabe quem foi Valentim. O nome poderia ter algo de irónico uma vez que foi este o homem que desafiou o imperador romano Claúdio II. O imperador estava convicto que a práctica do casamento era um obstáculo à listagem voluntária dos soldados, mas Valentim continuava a casar namorados em segredo. A lei que proibia o casamento acabava desta forma por reconhecer a importância do casamento na organização de um estado e de uma nação. Mas acredito que Valetim se tenha também tornado popular porque era proibido casar-se. Actualmente todos somos livres de nos casar, divorciar e afins...O valor do amor banalizou-se. O amor é a publicidade do menu especial que lemos no restaurante, o presente que vamos receber ou comprar, a atividade exêntrica que vamos fazer para nos recordar que em 361 dias no ano existe 1 dedicado ao amor. O que poucos sabem é que Valetim acabou por ser decapitado por causa da sua desobediência. Tal acto faz-nos pensar que afinal vão haver sempre Valentins que acreditam no amor e que certamente no meio de tanta publicidade, indústria, mercados vai haver alguém que vai escrever uma carta de amor e dizer que escreve simplesmente porque é dia de S.Valentim.