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Pietà e a Primavera Árabe

Este ano quando vi pela primeira vez a fotografia que ganhou o word press photo tive uma profunda sensação de deja vu, ao mesmo tempo que múltiplos pensamentos e sensações fluiram no meu pensamento. A primeira foi sem dúvida esta: esta foto é a Pietà moderna, uma foto  tão artística que não fica nada a dever à Pieta de Michelangelo: a mesma misericórdia, a mesma posição, até os tecidos que cobrem a figura feminina parecem deslizar da mesma forma.
 Depois tive esta percepção: que na foto não se vê a expressão da mulher o que é em simultâneo enigmático(não sabemos quem é a mulher e que expressão fez) e em simultâneo isto incomoda: não só por não sabermos quem é, mas porque o "sujeito" da piedade, o elemento que produz o sentimento nobre é icógnita...fiquei incomodada pela ideia que milhões de mulheres como eu, como esta vão ser para sempre sem uma face como se não existissem.                                  
A última sensação e pensamento que tive foi a mais forte e o mais poderoso: Por um momento pensei que não era a mulher que estava encoberta mas sim eu e todos nós que estamos cegos como no livro de Saramago: "Ensaio sobre a cegueira" porque no fundo todos padecemos de uma cegueira branca, no sentido que " o pior cego é o que não quer ver" e é aquele que padece de uma cegueira branca ou seja: todos nós sabemos o que se passa com esses milhões de mulheres e todos nós estamos a par dos abusos, exploração, degradação a que todos os dias expomos a figura da mulher e ninguém vê ou faz alguma coisa para mudar essa situação.

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