domingo, 29 de abril de 2012

Vender é perder?

Tenho andado a refletir sobre a diferença entre perder ou vender um negócio. À partida muitos diriam que no caso da venda, o vendedor ganharia dinheiro, mas o que acontece quando o negócio envolve centenas de outros negócios? Transações e milhares de  micro negócios e empresas associados a um bem que será vendido?
Depois de ter visto o Pingo Doce a ser vendido aos holandeses, a EDP aos chineses, parte do Millenium à filha do presidente Eduardo dos Santos, estava na hora de ver também a percentagem infíma mas preciosa para Portugal de 15% da barragem de Kaho-Bassa ser vendida aos moçambicanos. Não é que eu tenha nada contra o multiculturalismo mas o que me pergunto é como é que Portugal será capaz de manter uma auto suficiência financeira se estamos a ser controlados e subjugados por outros. Fiquei ainda mais perplexa com a posição de Passos de Coellho em Moçambique enquanto falava com um grupo de crianças que trabalhavam o vime para fazer cestos: " E então quanto tempo se demora para se tornar mestre?" Como se as crianças tivessem tempo para pensar no tempo de serem mestres enquando estavam mais ocupadas em manter a sua própria subsitência. Em nenhum momento se ouviu falar de trabalho infantil durante a peça jornalística, porque os moçambicanos sabem o quão importante é ser independente, enquanto Portugal esteve ali para vender mais uma parte do seu passado histórico e da sua economia transnacional. Entendo que tudo esteja a ser feito para cobrir a dívida para o exterior, mas este é o preço que todos teremos de pagar?  Dona Antónia Ferreirinha  sabia já em 1863 que ao vender parcelas de terreno do Douro aos ingleses estava a perder negócio e preferiu comprar o vinho aos agricultores para manter o Douro português. É importante mais do que nunca que os nossos líderes se mantenham atentos e menos desesperados e pensem em soluções menos evidentes mas mais eficazes.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Retratos de um Portugal deprimido

Como portuguesa que sou fiz questão da última vez que saí de Portugal de beber vinho durante a viagem de avião para me tentar esquecer que estava a deixar o meu país...bebi tinto maduro, para ter uma ideia saudosista do meu alentejo e ribatejo lá longe... Este simples acto, o de beber vinho, não só me fez sentir bem e mal como foi em simultâneo um dos muitos milhares de retratos de portugueses deprimidos: ora porque deixam o país, ora porque ficam em território nacional, ora porque querem emigrar e não sabem como fazê-lo...outros ainda vi a resignarem-se simplesmente à sua sorte e em modo de velho do restelo a tomar comprimidos com aguardente para tentar esquecer a idade e a troika. Admiro os portugueses que conseguem esquecer a crise com um simples jogo de futebol ou com a telenovela da Santinha da luz. Admiro porque não sou capaz. Não há palavra mais triste e ignóbil do que o "trespasse" do antigo atelier da minha costureira, ou as horas mortas na fila do banco no dia de levantar a reforma, onde todos os analfabetos aproveitam para levantar as misérias do balcão uma vez que não sabem usar as caixas multibanco. Não há horror maior do que um belo dia cheio de sol onde se vê pessoas a pedir no aeroporto cigarros aos estrangeiros e ver os "chicos fininhos" com um inglês mal arranhado a perguntar "cigar, cigar for me no?" Durante um momento enquanto ouvia o inglês mal coloquial do" chico fininho", pensei que pelo menos os vagabundos que vivem na cidade do Porto e que apanham o tabaco do lixo dos outros são mais nobres do que aquele que estava ali a pedir ao estrangeiro sujeito ao ar trocista do turista que fingia não entender. Tive ainda uma vontade quase incontrolável de queimar a revista de bordo onde se podia ler: Don´t buy a house buy the neighbourhood ( não compre uma casa, compre a vizinhança) e ao fundo uma paisagem de uma dessas aldeias abandonadas do sul de Portugal.
Mas a maior de todas as crises, pior do que a monetária, do que a trocista é a crise de espírito e essa crise nunca vai chegar aos portugueses: a avaliar pela quantidade de piadas e trocadilhos da televisão e  da imprensa nacional. O povo pode até ser ignorante, ser pobre, mas é livre e vai continuar a rir-se ainda que deprimido, com ou sem aguardente da troika, da Merkel, do Passos de Coelho, do Sócrates, do Alberto João Jardim e afins...porque ainda não se paga imposto por  gargalhada ou por uma dose de má língua.